segunda-feira, 21 de maio de 2018

Preconceito na Bolívia?


É só parar com as bicicletas carregadas que as pessoas querem saber tudo da nossa vida em minutos.

- São irmãos? Têm esposa? Filhos?

Com muita transparência e tranquilidade, respondo sorrindo: Somos um casal!

Vimos diversas reações do Brasil, mas na Bolívia, elas têm sido ainda mais fortes.

Comprando agasalhos na feira, a vendedora boliviana perguntou sobre nosso parentesco. Disse que éramos um casal ("una pareja" em espanhol). Ela exclamou:

- Um casal de amigos?
- Não! Um casal de namorados! Não existe homossexuais na Bolívia?
- Não assim. São todos escondidos!

Nas vilinhas pequenas posso até entender, mas em uma cidade turística e movimentada como Samaipata ainda é tão inusitado?

A situação mais tensa aconteceu há alguns dias. Empurrávamos as bicicletas a noite procurando onde armar nossa barraca. Um policial nos parou e pediu documentos. Enquanto Lizandro desenrolava os passaportes, o policial perguntou:

- Vocês são amigos?
- Não. Somos um casal.
- Mas você é mulher?
- Não. Sou homem.

Lizandro ficou tenso. O policial deu uma risada debochada e se preparou para alguma piada. Eu, sério, disparei antes:

- Parte do nosso projeto é viajar compartilhando mensagens contra homofobia.

Ele tambem ficou sério, conferiu os documentos, nos comprimentou e foi embora. Até agora na Bolívia, apenas espanto e nenhum preconceito.

Já tive muita vontade de rodar o mundo, mas uma pesquisa recente apagou esse fogo. Existem mais de 70 países em que ser gay é crime. Desses, 10 têm pena de morte. Felizmente, a América está livre disso. Belize recentemente descriminalizou e Trindade e Tobago segue no mesmo caminho.

Percebi que sou capaz de enfrentar todo o preconceito cultural de um país. Mas jamais pisarei em terras em que apenas por amar diferente já sou criminoso.

Resumindo, referindo-se a leis, a América é um continente livre para se amar (em teoria). Pois, saiba que verão o casal aqui chocando os tradicionais somente por sermos um casal bem resolvido e muito feliz.

domingo, 20 de maio de 2018

Bolívia, dia 14

(804 km pedalados)

Depois de duas semanas pedalando a Bomívia, chegamos à mágica Samaipata. Subimos cerca de 30 km e alcançamos a altitude de 1.700 metros.

Na primeira noite acampando, 5° graus e sensacão térmica de -2°. Estamos indo para o Alaska, mas devo admitir que a primeira noite de frio já foi uma porrada segura.


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quarta-feira, 16 de maio de 2018

Bolívia, dia 10

(670 km pedalados)

Dez dia depois de sair do Brasil por Corumbá, amanhecemos descansando em Santa Cruz de la Sierra, na casa de uma família boliviana linda que nos acolheu.

Pedalamos 8 dias, em média 84 km por dia. Gastamos 160 reais entre alimentação e três garrafas de água quando não conseguimos beber da torneira por ser muito salgada.

Partiremos amanhã em direção a Samaipata, onde as montanhas começam.


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Mais algumas fotos:








sábado, 12 de maio de 2018

Bolívia, dia 6

(384 km pedalados)

Há dois dias, saindo de Roboré, o vento contra soprou forte. Imensos morros apareceram no horizonte com algumas subidas. Cansados do Sol esturricante e de água quente de diversas cores e sabores, conseguimos pedalar apenas 42 km.

Chegamos na cidade de Chochis que fica ao lado de uma muralha incrível. Planejamos dormir na praça, mas fomos convidados pelo artesão Cezar para dormir em sua casa no meio de um lindo bosque. Que felicidade!

Chochis é bem pequenina, mas turística. Cachoeira, santuário construído no pé da montanha, trilhas, mirante, lagoa cristalina no alto da serra. Mas não conhecemos nada disso. Prefirimos descansar.

Dormimos relaxados em lugar seguro, nos hidratamos com água pura vinda das montanhas e demos descanso às pernas e aos joelhos. Afinal de contas, não viemos turistar. Pedalar até o Alaska requer foco, repouso e privações.

Pedalamos de Chochis até San José sem problemas. Estamos a 270 km de Santa Cruz de la Sierra.

Marcelo Totipah

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Bolívia, dia 3

(249 km pedalados)

Os dois primeiros dias foram os mais difíceis. A água que chega nos vilarejos é salgada. E, foi essa que bebemos.

O estômago ficou mal, evitamos beber água, nosso pedal ficou fraco.

O povo boliviano é sorridente e acolhedor, mas não conseguimos ajuda com alimentação. Ninguém acredita que viajantes de bike tão equipadas (e com todos os dentes na boca) estão correndo o mundo quase sem dinheiro no bolso.

Para ser sincero, torço para quando chegarmos em Santa Cruz de la Sierra (onde tem Banco do Brasil) tenhamos recebido algumas doações. 

Se é difícil encontrar água boa, é mais ainda encontrar água gelada. Pedalamos no Sol quente e nos hidratamos com água quente, quase chá.

Quase ninguém quer dar a senha de wi-fi. Todos cobram pela senha e nós não podemos arcar com o luxo de pagar por internet. Comida é prioridade.

Por aqui, os motoristas são muito educados. Abrem bastante, até mudam de pista para te ultrapassar. O asfalto é bom e quase todo trajeto é plano. Tão plano que me entedia. 

Estamos pedalando sentido Oeste. Ou seja, depois do meio dia o Sol é todo no rosto. Passo boa parte do dia pedalando de cabeça baixa.

Está tudo tão quente e é tão chato pedalar estradas retas e planas que nunca pensei que diria isto: Estou louco para que cheguem as montanhas!


Doações clique AQUI.

domingo, 6 de maio de 2018

Boreal


Cada gota de suor me trouxe até aqui. Foram 29.000 quilômetros de bike pesada cruzando inúmeras vidas até este momento. 

Centenas, milhares de doações de pratos de arroz e feijão para seguir forte. Centenas de amigos. Uma morte, uma fatalidade. Um assalto, um desafio.

A estrada me mudou infinitas vezes. Tantas que não sei quem sou. E, pouco importa. Viajo em busca das luzes verdes e misteriosas que vêm do Céu e do Sol.

Jornada Alaska: Marco Zero


Tripulantes: Um casal e uma gatinha
Meio de transporte: Duas bicicletas
Ponto de partida: Corumbá, MS
Ponto de chegada: Parque Denali, Alaska
Distância: 16.000 km
Verba disponível: R$ 154,00
Estimativa de duração: 18 meses
Início: 7 de maio de 2018
Instagram: @totipah


Névoa é a caçula e mascote do Projeto Totipah.

Já viajou de bicicleta por 7 estados brasileiros, percorrendo  6.700 km de aventuras felinas.


Lizandro se juntou ao Projeto Totipah há 10 meses.

Já pedalou 7.500 km por 8 estados brasileiros.


Marcelo é o criador do Projeto Totipah e mais experiente do grupo.

Já pedalou 29.000 km em cicloviagens cruzando 21 estados brasileiros e 5 países da América do Sul (Paraguai, Argentina, Bolívia, Chile e Peru).

terça-feira, 1 de maio de 2018

Cuidado! Veado na pista!


Viajando ao lado do meu namorado Lizandro, cresce na estrada outra faceta do Projeto Totipah.

É alto o número de depressão e suicídio de jovens que não aceitam a própria sexualidade ou são rejeitados pela família.

Quanto menor a comunidade, quanto mais se apegam a Bíblia, maior a probabilidade de sermos discriminados (há lindas exceções). Mas, enfrentar isso com sorriso confiante, também é nossa missão.

Quando nos assumimos gays na estrada, sem medo, sem peso na consciência, sem nos esconder, causamos reflexões instântaneas. Vemos olhares de meninos e meninas (que já perceberam não serem heterossexuais) brilharem.


Levamos um mundo de esperança, coragem e possibilidades para aqueles e aquelas que se escondem. Dizemos, apenas, "somos um casal e não há nada de errado nisso". E, a semente da diferença é lançada por aquelas terras. 

terça-feira, 17 de abril de 2018

Uma Vida sem acostamento


Os anos se passaram na estrada e fui capaz de desconstruir o medo dentro de mim. Mas, em momentos intensos e sensíveis, os questionamentos crescem brotando insegurança.

E, se eu não for forte o suficiente? Se meus joelhos lesionarem? Se a vontade mudar?

Eu continuaria se sofresse outro assalto?  Suportaria outro acidente? 

Quanto mais força acredito ter, mais falhas e defeitos vêm à tona. Ainda assim, mesmo em coração abarrotado de fragilidades, continuo. 

Não é qualquer caminhão desgovernado que atropelará os meus sonhos.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Os Durões


Na vida estradeira, coragem é uma das palavras que mais ouvimos. É coragem, viu? Queria ter essa coragem! Mas poucos sabem o que está por trás de trocar a casa pela bicicleta.

Antes da minha primeira viagem, a depressão me invadia. O vazio existencial de não poder ser eu mesmo em uma sociedade massacrante me trouxe pensamentos de suicídio. Criar o Projeto Totipah salvou a minha vida.

Pedalando pelo Nordeste, conheci o Lizandro. Eu via a tristeza de seus olhos, como se tudo que enxergasse fosse tons de cinza. Chamei apenas uma vez. Algumas semanas depois, ele pegou a bicicleta enferrujada do pai e começou a viajar com o projeto. 

Naquele momento, ele não sabia nem passar marchas e disse para a família que viajaria um mês, tempo das férias da faculdade. Já se passaram nove meses, oito estados e ele quer pedalar o mundo.

Nós não somos corajosos. Só cansamos de viver vidas que não eram as nossas. Cansamos de viver com medo. Somos frágeis, delicados e cansamos.